Barato e rápido,ainda que perigoso,o transporte sobre duas rodas
conquistou brasileiros das regiões Norte e Nordeste,onde há mais
residências com motos do que com carros,segundo a Pnad (Pesquisa
Nacional por Amostra de Domicílios) de 2012.De acordo com o estudo,uma em cada quatro residências dessas áreas
contam com motos.No Sudeste,essa proporção é de um para quase sete
domicílios.Para se ter ideia da penetração desses veículos de duas rodas,no
Nordeste há tantos lares com motos na garagem quanto com máquinas de
lavar roupa no banheiro ou na área de serviço.
DECISÃO LÓGICA
Esse boom é produto da equação entre baixo desemprego,políticas de
transferências de renda,boa oferta de crédito e transporte público de
baixa qualidade.
"As políticas de inclusão por meio do consumo,em especial numa região
de transporte público inexistente ou de baixa qualidade,facilitou o
aumento do número de motos",afirma Luiz Artur Cané,presidente do
Movimento Brasileiro de Motociclistas.
No Ceará,por exemplo,que concentra 1 milhão de motos,maior frota do
Norte e do Nordeste,um trabalhador que utilize apenas duas conduções
diárias tem gasto mensal de cerca de R$ 100.O Estado ocupa a terceira posição no número de motos no Brasil,de
acordo com ranking do Departamento Nacional de Trânsito (Denatran).Só
perde para São Paulo,com 3,9 milhões e Minas Gerais,com 2 milhões.
Não é difícil imaginar a troca desse investimento por parcelas do mesmo
valor para a aquisição de um modelo simples de moto que permita
transporte individual ágil.
"Além de agricultores e vaqueiros,mulheres no interior cearense estão
adquirindo e conduzindo motos",diz Igor Ponte,superintendente do
Detran (Departamento Estadual de Trânsito) cearense.No Estado,80 dos 184 municípios possuem mais motos do que automóveis.
"Num ambiente em que o carro é caro para a maioria da população e o
transporte público é precário,um veículo rápido e econômico se torna
uma alternativa lógica e atraente",diz Eduardo Alcântara Vasconcellos,engenheiro,sociólogo e diretor do Instituto Movimento.
"Isso torna Norte e Nordeste os principais mercados para a indústria de motos."
Para ele,o incentivo do governo federal a essa alternativa de locomoção se deu de forma "irresponsável".
"As pessoas não são alertadas sobre perigos e vulnerabilidade do
motociclista.É hipocrisia dizer que a moto vai libertar os pobres",diz."Só se for para mandá-los mais cedo para o céu."
Já em Pernambuco,o cenário no interior em que predominavam jumentos cedeu lugar a motocicletas.Se,em 2009,13,4% dos domicílios pernambucanos (345 mil) tinham motos,em 2012 o índice saltou para 19,5% (545 mil),segundo a Pnad.
MORTES
Acidentes envolvendo motos provocaram 4.041 mortes no Nordeste brasileiro (7 por 100 mil habitantes) em 2011,segundo Datasus.
O número representa um crescimento de 398% em relação ao ano de 2000.No
mesmo período,as mortes no trânsito em geral aumentaram 130% na região
(67% em todo o país).
Na região Norte,acidentes sobre duas rodas provocaram 6 mortes por 100
mil habitantes --no Sudeste,foram 4 por 100 mil habitantes.
"O número de motocicletas nessas regiões deve continuar crescendo",diz
Cané."Esperamos que esse aumento gere políticas públicas de educação
para o trânsito,de treinamento para a habilitação e de fiscalização."
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Folha de São Paulo


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